PRODUÇÃO DE TEXTOS: A IMPORTÂNCIA DOS "SILÊNCIOS" NA ESCRITA

Stéfany Rodrigues Sousa, Vânia Carmem Lima

Resumo


PRODUÇÃO DE TEXTOS: A IMPORTÂNCIA DOS "SILÊNCIOS" NA ESCRITA

 

Vânia Carmem Lima1

Stéfany Rodrigues Sousa2

 

1 Universidade Federal de Goiás - Regional Jataí/ E-mail: vaniacarmem@yahoo.com.br

                                           2Universidade Federal de Goiás - Regional Jataí/ E-mail: stefanyrsrs@gmail.com

 

 

Resumo:

Este estudo objetivou analisar 14 textos dissertativos produzidos por discentes de uma turma de “Redação”, do Centro de Línguas da UFG – Regional Jataí, verificando o que eles decidem explicitar e implicitar. Todo texto conta com a participação ativa do interlocutor, a quem cabe preencher os espaços "vazios". Por isso, fazem-se necessários os implícitos como suportes do dizer e como fatores de coerência textual. Entretanto, em muitos textos analisados, verificou-se a supremacia do discurso explicitado em detrimento da sua incompletude, o que levou a uma leitura desinteressante e a uma atitude “não-responsiva” dos leitores. Algumas razões para tanto podem ser o domínio insuficiente dos recursos textuais e discursivos e o não reconhecimento da produção textual como prática efetiva de linguagem.  Assim, é necessário demonstrar aos alunos a importância de tais recursos linguísticos a fim de que os discentes busquem aprimorar essa habilidade e desenvolvam produções de forma autocrítica e consciente.

Palavras-chave: Produção textual. Recursos linguísticos. Implícitos.

Introdução

É fato que toda produção escrita se caracteriza como objeto incompleto, constituído de espaços vazios, uma vez que o seu fim principal é a comunicação e interação com o outro, ou seja, a troca entre as partes envolvidas nesse processo: leitor e autor.

E, justamente por isso, o texto necessita, na sua efetivação, da ativa participação do interlocutor, a quem cabe preencher tais espaços vazios por meio do conhecimento pessoal, partilhado e presumido a partir dos índices textuais e do contexto de interação, pois, como afirma Antunes (2009, p. 113), a incompletude do texto representa uma condição de sua coerência.

Nesse sentido, há de ter lugar fundamental na trama linguístico-discursiva os implícitos (pressuposto, subentendido, implicação, inferência) como suportes do dizer e como fatores de coerência textual.

Levando tais aspectos essenciais em consideração, o presente trabalho teve por objetivo analisar os textos produzidos por alunos de uma turma de “Redação”, preparatória para o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) do Centro de Línguas da UFG – Regional Jataí, no ano de 2016, com foco em textos do gênero discursivo - argumentativo, verificando o modo como o aluno/autor mobiliza os recursos linguísticos para desenvolver, de forma escrita, o tema proposto. Ou seja, o intuito foi tentar compreender o que ele decide tornar explícito e o que deixa na implicitude, na tessitura textual.

Metodologia

Para o alcance dos objetivos do trabalho, foram necessárias três etapas interligadas, realizadas durante o trabalho de Redação.

A primeira consistiu em apresentar aos alunos o tema para a produção textual posterior - Legalização ou não do porte e posse de armas de fogo no Brasil. A partir da leitura da coletânea, os alunos se inteiraram acerca da temática identificando os argumentos contrários e favoráveis e definindo, assim, seu posicionamento, o que é fundamental para a tipologia exigida.

Na segunda fase, os discentes elaboraram, sem a intervenção do professor - uma vez que se tratava de uma atividade avaliativa - um texto dissertativo-argumentativo defendendo sua perspectiva acerca do tema.

Ao fim, procedeu-se a leitura e análise dos textos, observando como o autor tomou a palavra e assumiu o seu dizer na mobilização ou não dos implícitos (pressupostos, subtendidos, elipses, inferências) e os efeitos causados por essas “escolhas” ou por essas ausências.

Resultados e Discussões

Ao analisarmos algumas produções textuais dos alunos verificou-se, em grande parte delas, a supremacia do discurso explicitado em detrimento daquilo próprio das línguas naturais - a sua incompletude. Dessa maneira, o muito “cheio” do tecido textual concorreu para uma leitura enfadonha, desinteressante, e até mesmo para uma atitude “não-responsiva” por parte dos agentes da interação (BAHHTIN, 1995), prejudicando o próprio processo interativo.

Em vista disso, podem ser levantadas algumas razões para explicar tal situação. Uma delas pode consistir na necessidade de preencher todo o espaço em branco do papel, ou encarar o "muito escrever" como sinônimo de um bom texto.

 Outra razão pode ser o insuficiente domínio dos recursos textuais e discursivos, o qual leva os alunos a repetirem o dito anterior ou mesmo explicar detalhadamente esse ou aquele ponto de vista, fato ou opinião. Tais atitudes desqualificam a produção e o próprio poder expressivo do aluno, pois ignoram o texto enquanto unidade interativa, cujos sentidos fazem-se na ação colaborativa do leitor.

Por fim, o não reconhecimento da produção de texto como prática efetiva de linguagem, mas como um dever, uma tarefa a ser realizada e acabada na sala de aula, sem ter claro para quem se escreve, como parte das condições de produção (GERALDI, 1999), pode ser outro fator que explica o exagero dos "cheios" no texto e a pouca exploração dos implícitos e não ditos como elementos constitutivos  do texto, instauradores dos movimentos deslizantes de sentidos (ORLANDI, 2001).  

Considerações Finais

Em vista do exposto e considerando a prática de produção de textos, na perspectiva aqui abordada, ainda pouco efetiva, pode-se explicar a grande dificuldade dos alunos em explorar os implícitos, pressupostos e elipses em seus textos, devido ao fato de não conhecê-las, não dominá-las e, sobretudo, por não reconhecer o outro, interlocutor, como seu parceiro ativo na realização do evento comunicativo. Conforme apregoa Eco (1985), a atividade colaborativa do leitor faz ver no texto aquilo que o texto não diz, embora prometa, preenchendo os espaços vazios e relacionando o dito com o não dito.

Daí a necessidade de demonstrar aos alunos a importância de tais recursos linguísticos a fim de que os discentes busquem sempre aprimorar essa habilidade e desenvolvam produções de forma autocrítica e consciente, percebendo, assim, a incompletude da linguagem, pois, conforme Orlandi (2002), o dizer precisa da falta para o movimento dos sentidos.

Referências

 

ANTUNES, I. Língua, texto e ensino: outra escola possível. São Paulo: Parabóla Editorial, 2009.

 

 

BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia de linguagem. São Paulo: Hucitec, 1995.

 

 

ECO. U. Obra aberta. España: Planeta de Agostini,1985.

 

 

GERALDI, J. W. (org.). O texto na sala de aula: leitura e produção. 3 ed. São Paulo: Ática, 1999.

 

 

ORLANDI, E. Discurso e texto: formação e circulação dos sentidos. Campinas, SP: Pontes, 2001.

 

 

___________. P. As formas do silêncio: no movimento dos sentidos. 5 ed., Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2002.


Palavras-chave


Produção textual. Recursos linguísticos. Implícitos.

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